Arquivo mensais:janeiro 2016

5 sextas, 5 sábados, 5 domingos

Rookie

Chega.

Já chega.

Por favor, chega de enviar correntes de e-mails me dizendo que Janeiro terá cinco sextas, cinco sábados e cinco domingos. Já não consigo mais receber essas mensagens sem espumar de raiva, por diversos motivos, e tomo meu tempo para escrever esse post, um pouco fora do tema desse blog, para dissertar sobre um de meus combates épicos: o spam mal feito.

Tenho vários combates, todos perfeitamente justificados. Coxinha comida pelo lado errado, e-mail escrito em azul (ou qualquer outra cor além de preto), e-mails @hotmail, gente que vai “guardar mesa” enquanto outra pessoa está na fila, spoilers na internet, gente que conta o final da piada quando eu estou perto de terminar de contar, mensagens-imagens de “boa quinta-feira” no grupo de WhatsApp da família, astrologia, Windows Vista, café solúvel, francês que deseja “bonne année!” em fevereiro, teclados com switch de borracha, notebooks da HP, tomada de três pinos (sou clichê assim), texto “científico” escrito em Word, gente que critica arte moderna dizendo que “fazia pintura mais bonita quando tinha cinco anos”, emissora de televisão que acha que perguntar para gente aleatória na rua o que eles acharam daquilo configura “jornalismo”, qualquer uso de caps lock que não seja para siglas; todos esses eventos são bandeiras que carrego com mais ou menos intensidade. Poucos deles, no entanto, provocam em mim meus instintos mais primitivos quanto spam mal feito, mal pesquisado, mal compartilhado.

E o e-mail das cinco sextas, sábados e domingos é um exemplo primoroso dessa ojeriza que me é evocada. Sim, janeiro 2016 é um mês com essas características, mas isso não é surpreendente ou impressionante porque não só é um evento comum, mas acontece pela simples passagem do tempo que, por definição, é a coisa mais previsível que existe. Podemos fazer uma conta rápida para estimar a frequência com que isso acontece. Para que um mês possua cinco desses dias, basta que comece em uma sexta-feira e tenha 31 dias. As chances de um mês aleatório começar em uma sexta, pela isotropia da semana, são \frac{1}{7}. São sete meses no ano com 31 dias (usando os ossos da mão para contar fica fácil), então a chance de um mês ter essas duas características é \frac{1}{7}\times\frac{7}{12}=\frac{1}{12}.

Esse evento acontece, em média, uma vez por ano, não uma vez a cada 823 anos, de onde tiraram esse número?! Ele nem funciona! Janeiro de 2839 não terá cinco sexta, cinco sábados e cinco domingos! O primeiro dia de janeiro de 2839 é um sábado, não uma sexta. Se você quer repetição, um número desses seria formado com o produto da duração de todos os ciclos envolvidos nessa repetição. Por exemplo, a semana tem sete dias e ano bissexto acontece uma vez a cada quatro anos, então tenho certeza de que o mês de janeiro de daqui a 4\times 7=28 anos terá também cinco sextas, cinco sábados e cinco domingos. Isso não funciona sempre porque ano bissexto tem problemas quando o ano é múltiplo de 100 e 400, o que me forçaria a multiplicar por coisa demais, mas isso é um jeito de garantir a periodicidade e é conhecido como teorema de Lagrange. Se você começar uma atividade no domingo e repeti-la de dois em dois dias, depois de sete repetições você voltará a fazê-la no domingo. Se repetir de três em três dias, de quatro em quatro dias, de cinco em cinco dias, não importa; depois de sete repetições você estará sempre no domingo, com certeza absoluta.

O número correto de anos seria um número formado do produto de diversos outros números, cada um correspondente à duração dos ciclos envolvidos nessa periodicidade (semana, ano bissexto). Mas 823 não é apenas o número errado, ele é primo! E não é tão fácil chutar um primo tão alto assim, então parabéns aos criadores do spam, eles conseguiram, por azar, escolher um dos números mais errados possíveis, se existe uma gradação de errado para esse problema.

E o compartilhamento desse spam me causa tanto desgosto porque uma simples volta ao calendário poderia resolver o problema. Esse mesmo evento aconteceu em maio do ano passado, meu aniversário foi em um desses “sábados sagrados dos chineses”. E o que chineses têm a ver com isso? Eles nem usavam o calendário gregoriano!

Por fim, me acalmo. Sei que o combate é vão, que spam são meus gigantes em moinhos de vento, bem como e-mail em azul e a tomada de três pinos, não vencerei. Fica esse desabafo, e esse comentário sobre essa interessante propriedade de repetição de teoria dos grupos. Sei que esse post é inútil, a intersecção de leitores desse blog com quem compartilha esse tipo de abominação é perto de zero, meu alcance é baixo, meu poder evangelístico de apresentar as boas novas de pegar o calendário deste ano e verificar que a mesma coisa acontecerá em julho é pequeno.

A biblioteca de Babel

Rookie

Hoje não tem modelo ou coisa muito complicada, vamos falar de conhecimento, e de um de meus contos favoritos: a biblioteca de Babel. Publicado por Jorge Luis Borges em 1941, esse conto apresente um universo distópico de excesso de informação fascinante. Passando por ele, comento um pouco do propósito desse blog, e do valor da educação convencional e análise crítica e científica em uma era dominada pela consulta imediata a todo conhecimento humano na ponta dos dedos em um celular.

Imagine uma grande biblioteca, grande mesmo. A descrição de Borges é intrincada e interessante, a estrutura da biblioteca é feita de hexágonos intrincados com prateleiras repletas de livros em ordem aparentemente aleatória. A biblioteca contém apenas livros de exatas 410 páginas, com cada página tendo 40 linhas e cada linha contendo 80 símbolos. Para simplificar, esses símbolos são apenas 22 letras, espaço, vírgula e ponto; estamos usando um alfabeto simplificado. Essa biblioteca é única por uma característica curiosa, ela contém todos os livros possíveis de 410 páginas.

Uma representação da biblioteca.

É um projeto ambicioso, mas seguramente podemos dizer que a biblioteca de Babel é finita. Uma conta rápida nos mostra que ela contém 25^{410\times 40\times 80}\approx 10^{1.834.097} livros. Em comparação, a maior biblioteca do mundo, a British Library, tem 1.5.10^8 livros. Em termos de bits, a biblioteca de babel contém aproximadamente 2^{6.092.738} bits, ou bytes, não lembro a diferença, mas chega nessa escala de números essas definições são pálidas para descrever a grandeza da biblioteca de Babel.

O conto é muito interessante e descreve o universo dos cidadãos atormentados por esse sonho sadista de um deus cruel criador do maior pesadelo de um bibliotecário. Existem puristas que desejam queimar todos os livros que não fazem sentido para preservar apenas os puros, os sagrados, que contam algo com nexo; ainda que haja intensos argumentos e debates, pois um livro aparentemente sem sentido pode ter nexo, coerência e coesão em alguma língua desconhecida. Talvez seja o trabalho deles descobrir essa língua, mas até que ponto isso não seria, ao mesmo tempo, definir o conteúdo do livro?

Mais do que isso. Nessa biblioteca certamente há um livro relatando exatamente o seu futuro, e o meu, e todos os nossos futuros possíveis que podem ser descritos em 410 páginas. Nessa biblioteca há uma lista de todos os seus romances, suas aventuras, seus desejos, e esse post do blog. Ainda, é uma coleção finita de livros, bastaria você procurar com carinho e você acharia, após algum tempo, todas as respostas que busca, e todas as perguntas que teve.

Não quero lançar spoilers, paro por aqui. A ideia da biblioteca me fascina por motivos diferentes, eu vejo partes de Babel em meu dia a dia como divulgador e como quem se interessa por muitas coisas que não conhece. O maior problema da biblioteca, e talvez sua principal característica, é sua inutilidade completa. Se você quer alugar um livro, digamos “História do Brasil“, de Boris Fausto, dizer título e autor não basta. Não apenas esse livro está na biblioteca, mas todas as 410\times 40\times 80 variantes com um erro de digitação, ou as variantes com dois erros de digitação, três, quatro, cinco e assim por diante. Para obter o livro “História o Brasil“, você precisaria especificar letra por letra o livro que deseja, ferindo o propósito do aluguel. Em outras palavras, para especificar um livro, você precisa fornecer a mesma informação contida no livro, tornando a obtenção do livro inútil.

E observo Babel na vida real diversas vezes na Internet. Como disse um amigo, quando eu cheguei na Internet era tudo mato. Quinze anos depois, essa soma do conhecimento humano está longe de atingir os padrões de Babel em termos de bits ou bytes, mas está crescendo, tornando-se gigantesca e por vezes lembra os hexágonos da biblioteca do pesadelo. Imagine que você busca algo sobre evolução, vacinas, dietas, curas, física quântica ou sobre a importância das estrelas em nosso dia a dia. Esses temas possuem tanto ruído, tantos “livros com erros de digitação”, que você precisa fornecer mais informação para obter o conhecimento que deseja. Você precisa já saber e conhecer alguns desses temas para navegar nas sugestões de sua consulta, correndo o risco de cair em um dos livros da categoria que os puristas adorariam queimar.

Muita coisa na área científica dessa grande Internet está mal explicada, distorcida, deturpada, por uma mistura de charlatães e leigos bem-intencionados com pouca paciência para aprender ciência como se deve. Meu trabalho, e o seu, é iluminar os bons livros, permitindo que sejam encontrados com menos informação do que eles contêm. É uma cruzada contra o ruído, contra a pseudociência, abrindo caminho nessa internet que ainda tem muito mato para se cortar.