Dos delitos, das penas e dos almoços.

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O resultado de uma decisão judicial depende apenas das leis e dos fatos? Com essa pergunta, os matemáticos Shai Danziger, Jonathan Levav e Liora Avnaim-Pesso causaram tumulto em um artigo publicado em Proceedings of the National Academy of Science, um periódico científico americano extremamente bem respeitado, e gostaria de compartilhar esse artigo hoje com vocês.

No artigo, os autores compilaram 1.000 decisões judiciais de liberdade condicional, em que o resultado poderia ser apenas sim (liberdade concedida) ou não (volta para a cela), para explorar um lado pouco comentado do sistema judiciário, pouco mencionado em cursos de direito. Com estatística, poderíamos ver pela primeira vez a influência marcante do café da manhã na definição do futuro de um integrante do sistema carcerário.

O sistema de decisão judicial funcionava da seguinte forma: os prisioneiros eram julgados dependendo da ordem de chegada dos advogados ao tribunal, não tendo poder sobre o horário em que teriam seu caso analisado. Os autores do artigo decidiram compilar a seguinte estatística: como o número de decisões favoráveis varia em relação à hora do dia? Sendo Sim = 1 e Não = 0, podemos fazer a média das decisões e estudar como essa média varia da primeira decisão do dia à segunda, da segunda à terceira e assim por diante. O resultado é o seguinte gráfico:

F1.largeNo eixo X temos a ordem das decisões, sendo x=1 a primeira decisão do dia, x=2 a segunda e assim por diante; cada tick marca uma decisão múltipla de 3. As linhas pontilhadas são pausa para almoço e pausa para café. O gráfico fala por si.

Alarmados com esse resultado, os cientistas estudaram outras variáveis em função da posição da decisão no dia. Porque correlação não implica causalidade, esse comportamento pode ser causado por uma terceira variável que liga as decisões e o horário. Eles então estudaram a gravidade da ofensa, número de encarceramentos prévios, porcentagem de presos que estavam em um programa de reabilitação quando postularam a liberdade condicional e o número de meses cumpridos da pena. Os resultados são:

F3.largeÉ fácil ver que o padrão do primeiro gráfico não chega perto de se repetir em nenhum outro. As outras variáveis não apresentam correlação clara com almoço ou café, não nos resta outra alternativa. Os autores do artigo são hesitantes, dizem que gostariam de achar uma variável escondida, mas a conclusão parece clara: uma decisão judicial depende de leis, fatos e do que o juiz comeu no café da manhã.

Os autores explicitam que não sabem se é a comida ou o repouso. Talvez estar descansado mentalmente torne os juízes mais brandos, e talvez depois de ler tantos históricos com crimes horrendos eles vão endurecendo nas decisões e a pausa lhes restabelece a obrigação da imparcialidade. Independente da sua explicação favorita, o estudo acende debates e reflexões interessantes sobre nossa maneira de fazer avaliações.

Podemos perguntar da taxa de sucesso de entrevistas de emprego em função da ordem de apresentação dos candidatos, podemos perguntar a relação entre nota de um aluno em prova oral e sua ordem de passagem pela lousa. Independente da pergunta, se podemos tirar uma lição do artigo, percebemos que pessoas alimentadas são mais felizes, que você quer seu caso julgado por um juiz repousado, e que levar uma maçã para a professora, no final das contas, é uma excelente ideia.

3 ideias sobre “Dos delitos, das penas e dos almoços.

  1. Luiz

    É simplesmente incrível existir um blog com essa qualidade. Ser brasileiro só torna o fato ainda mais inacreditável. Como é bom ler seus textos!

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