A força de uma narrativa

Rookie

Em meu último post, apresentei a vocês algumas técnicas estatísticas interessantes aplicadas ao estudo de correlações entre os partidos brasileiros. O assunto agradou, e muitos pediram um estudo parecido com a câmara dos deputados, com sua base amostral muito maior, seu jogo político mais acirrado, seria um estudo interessante em vários níveis. No entanto, não queria repetir exatamente o que fiz com os senadores, não queria mais do mesmo. Decidi, por isso, avançar em um assunto mais polêmico, e estudar a força de uma narrativa da política brasileira.

Lanço novamente o alerta: esse não é um blog político. Não tenho agenda partidária e minha opinião política é irrelevante na estatística. Tentei tratar os dados da maneira mais imparcial que pude, aceito sugestões dos que acharem alguma soma ou divisão injusta nessas linhas. A escolha do assunto é um interesse pessoal que partilho com muitos brasileiros: o escândalo na política apelidado mensalão.

A narrativa da acusação, resumidamente, é a de que durante os anos 2003-2004 a base aliada pagou uma espécie de mesada a deputados para fortalecer suas votações e assegurar o apoio da câmara aos projetos do governo. Base aliada e governo negam, sustentando sua inocência até o julgamento, que ainda corre. O escândalo explodiu no primeiro semestre de 2005, o que nos permite uma tentativa de análise nisso.

Tendo em mãos os votos dos deputados federais durante o primeiro mandato do governo Lula, pude dividir esses quatro anos em duas duplas: 03-04 e 05-06. Podemos nos perguntar como as correlações entre os partidos evoluíram entre esses dois biênios, pois, se a narrativa da acusação faz sentido, então a correlação entre governo e centro nos dois primeiros anos deve ser mais forte que nos anos seguintes, pois na primeira dupla o mensalão supostamente existiu, e foi desmantelado no início dos dois anos seguintes.

Claro, isso é uma simplificação grosseira, e proponentes de ambos os lados da narrativa podem interpretar os resultados da análise como quiserem. Se eu não encontrasse correlações, os mensalistas poderiam alegar que tal pagamento pode ter continuado no biênio seguinte. Eu encontrando correlação, os anti-mensalistas poderiam dizer que as mentiras vomitadas pelo partido da imprensa golpista fizeram o centro recuar do governo, ou que a mudança nas correlações é um resultado normal de uma crise política. A estatística é uma, mas a interpretação é sua.

Dito isso, vamos aos dados. Depois da publicação do último post, recebi uma chuva de dados, planilhas e banco de dados, e mando todos os meus agradecimentos aos que indicaram referências e especialmente aos do radar parlamentar pelo lindo banco de dados com todos os votos dos deputadores federais desde 1999. Infelizmente esse banco de dados não é meu, qualquer interessado pode entrar em contato com o grupo do radar e eles provavelmente ficarão felizes em compartilhar os dados. Aquele arquivo .xml foi um presente de natal, eu nem sabia o que fazer com tantos dados, senti-me uma criança presa na fábrica da Nestlé.

Para realizar a análise, tomei algumas decisões. Não podia considerar todos os deputados, alguns não possuíam relevância estatística suficiente. Excluí da análise qualquer deputado que tenha votado em menos de 10% das votações em qualquer um desses dois períodos. Ao todo, foram tomadas 259 decisões em 03-04 e 164 decisões em 05-06. A câmara possui 513 deputados, mas com este filtro apenas 450 sobreviveram para a análise. Os excluídos fazem parte dos que se tornaram prefeitos em 2005 ou daqueles cuja frequência no plenário deixou a desejar.

Primeiro, vejamos a composição da câmara no biênio 03-04, em uma matriz similar à usada no estudo dos senadores:

lula_1

Matriz de correlação da câmara nos anos 03-04.

Aos que não viram o último post, explico a matriz. Na linha $i$ e coluna $j$ você encontra a correlação entre o deputado $i$ e o deputado $j$ durante os anos 03-04. Se essa correlação é positiva, eles votam juntos. Se é negativa, costumam divergir. O tamanho da correlação será a coerência entre os votos desses deputados, muito alta, eles votam de forma praticamente igual, muito negativa, eles parecem querer votar um o oposto do outro. Essa matriz pode ser lida em blocos. Notando a existência de dois blocos, percebemos a existência de duas orientações políticas na câmara, que equivalem ao que chamamos de governo e oposição. Como no caso dos senadores, elas existem e são bem definidas. Além disso, há pouquíssimas regiões de anticorrelação, o que mostra que a câmara em 2003 buscou bastante o consenso; a própria natureza dos votos da câmara parece chamar mais concordância e unanimidade.

O segundo passo foi criar essa exata mesma matriz para o período 05-06, mas precisamos tomar cuidado. Devemos continuar com a mesma ordem da matriz, e essa ordem foi definida pelas correlações no primeiro período. Mantendo os mesmos deputados nas mesmas linhas, eu construo a matriz do segundo biênio do primeiro governo Lula:

lula_2_dep_1

Matriz de correlação da câmara nos anos 05-06.

Essa matriz está bem mais confusa, mas é o esperado, pois usamos a ordenação no período anterior, e certamente coisas mudaram entre os dois períodos. Ainda não conseguimos ver claramente o que mudou, ou o quanto mudou, por isso precisamos de um critério mais visual e preciso para medir a diferença, e uma subtração costuma ser bem eficaz para esse trabalho.

A matriz seguinte será a diferença entre as correlação de cada deputado comparando o período 05-06 ao período 03-04. Os exatos mesmos deputados são analisados. As regiões vermelhas, negativas, são aquelas que perderam correlação, ou seja, enfraqueceram politicamente de 03-04 a 05-06. As regiões azuis ganharam correlação, foram fortalecidas quando comparamos os dois biênios.

lula_delta

Diferença entre as matrizes de correlação do primeiro e segundo biênio do primeiro governo Lula.

E aqui temos um prato cheio para análise. A base governista perdeu muita correlação a partir do ano 2005, e, com isso, muita força política. Notamos que as mesmas pessoas que abandonaram o barco do governo, as “raias vermelhas” no bloco governista, concordaram substancialmente mais com o bloco da oposição. Essas raias que rasgam o espectro mostram um movimento massivo de políticos que votaram majoritariamente a favor do governo nos primeiros dois anos e trocaram de opinião, passando a contrariar a situação em um número relevante de vezes nos dois anos seguintes. Cada raia vermelha representa um deputado que em 2003-2004 votou diversas vezes a favor do governo e em 2005-2006 não apresentou o mesmo nível de concordância com a base da situação. O número de raias vermelhas no governo passa de 100.

É verdade que há raias vermelhas na oposição também, não podemos ignorá-las. Mas podemos contá-las, são cinco deputados que votavam com a oposição e passaram à situação, um número insignificante perto do fenômeno inverso, podendo ser explicado por flutuações estatísticas convencionais ou outras manobras políticas naturais ao congresso. Ademais, dentro da oposição há de tudo, aumento e perda de correlação, enquanto a base aliada é um mar de vermelho, não há nenhum ganho de correlação em todo núcleo da base aliada.

Em um próximo post, prometo a análise desses dados com os partidos em mente. Não exponho agora para não carregar em informação, e para não trair meu propósito inicial: avaliar a força de uma narrativa. A acusação do mensalão não cita (que eu tenha visto, correções são bem-vindas) partidos explicitamente, mas um fenômeno interpartidário em larga escala, dinheiro dado a parlamentares como persuasão a votarem de acordo com a situação. Olhando esta matriz, sou obrigado a concluir que a narrativa da acusação, que afirma a existência de um mensalão, é coerente com a estatística apresentada e explica os dados de maneira completa. Contando a partir da explosão do escândalo do mensalão, primeiro semestre de 2005, a correlação da base aliada ao governou caiu de maneira significativa e diversos deputados que estavam no núcleo da coerência governista votaram de maneira drasticamente diferente no segundo período do governo Lula.

Termino o post reiterando o aviso inicial: essa estatística não prova nada. Muitas explicações podem ser levantadas para essa mudança, os dois lados da história podem interpretar os dados como quiserem ou puderem, e podem levantar falhas na metodologia que tentarei responder ou consertar. Vou deixar esse ponto muito claro, porque não quero gente dizendo “Estatístico prova que mensalão aconteceu!”, correlação não implica causalidade. A única conclusão que posso tirar disso é a frase em negrito acima: a narrativa da acusação faz sentido. Se ela fosse verdade, esperar-se-ia dos votos dos deputados uma mudança cujo caráter é muito similar ao observado na realidade. Essa matriz não é prova, no máximo evidência, cuja interpretação e discussão deixo a quem entende do assunto.

19 ideias sobre “A força de uma narrativa

    1. Ricardo Marino Autor do post

      Olá Felipe, usei a linear de Pearson por ser a conceitualmente mais simples e a que tinha mais chances de conseguir explicar no blog, além de, por sua simplicidade, eu acredito que posso passar mais credibilidade (não que as outras sejam tendenciosas, são até melhores em alguns casos, mas pessoas costumam confiar mais naquilo que entendem). Confesso que a ideia de usar outras correlações é tentadora, vou levar essa ideia para casa.

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  1. Acho q vc ignorou um efeito que certamente teve um peso enorme nessa história. Muitos (e muitos mesmo) deputados passaram a não votar com o governo pois resolveram dele se desvincular, justamente por causa das acusações (independente de serem verdadeiras ou não). Uma avalanche de políticos que nada tinham a ver com o escândalo se desfiliou dos partidos governistas nessa época (somente como exemplo: Marina Silva, Cristóvam Buarque, Chico Alencar, Gabeira, e muitos outros), ou seja, seria normal observar uma grande perda de correlação no bloco da situação não pq os deputados envolvidos no mensalão deixaram de votar com o governo, mas pq outros quiseram se desvincular da imagem arranhada deste, alguns passando até a vorazes opositores (bom, não só pra se desvincular da imagem, alguns talvez acreditassem nas denúncias e ficaram repugnados, enfim, esse não é o ponto). Para a análise ficar mais conclusiva, seria necessário um estudo de casos particulares. Talvez considerar a influência sobre os resultados dos principais partidos envolvidos no lado ‘receptivo’ seria um bom começo (PP, PL – atual PRB – e PTB).

    abraços e parabéns pelas análises muito interessantes

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    1. Ricardo Marino Autor do post

      Obrigado pelo comentário, e eu acredito não ter ignorado esse efeito, porque não atribuí a mudança a nada, não quis nem quero concluir desses dados que o mensalão ocorreu. O objetivo era apenas argumentar se a narrativa da acusação é coerente. Se não houvesse mudança na correlação, ou se ela aumentasse no governo, o Gurgel teria que fazer algumas piruetas na argumentação para justificar esses dados. A estatística é essa, mas a interpretação é sua.

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      1. Thiago

        Seria interessante ver essa correlação entre os deputados que supostamente participaram do esquema (não sei se existe uma lista :(), e também fazer um controle com os primeiros FHC e Dilma (por biênios, do mesmo jeito) para verificar se esse vazamento da base aliada não é um fenômeno natural após as eleições municipais…

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  2. Lucas Okado

    Olá,
    A questão que o Zé coloca é bem interessante. Com a crise política instaurada, muitos deputados abandonaram o barco. Outra questão é que no segundo biênio de um governo ocorrem as eleições municipais e as alianças políticas sofrem outro reordenamento. Seria interessante comparar com outros períodos para verificar se este mesmo efeito se sustenta.

    Abraços e parabens pelas análises!

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  3. Daniel Bramatti

    Olá, Ricardo, belo trabalho, parabéns. Apenas uma questão: como o mensalão foi denunciado em junho de 2005, não seria o caso de medir os efeitos a partir do segundo semestre daquele ano?

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  4. Paulo

    Ricardo, achei muito interessante sua análise.

    No entanto, eu gostaria de sugerir que você se voltasse ao tema anterior, em especial no passado recente e em como o Brasil é hoje.

    O assunto sobre a falta de ideologia partidária me parece muito mais relevante neste momento, tendo em vista eventos recentes, em que a criação do partido da Marina, a Rede, foi rejeito pelo TSE e o fato de que a base governista (em especial o PMDB) está encabeçando uma campanha a todo vapor contra a criação de novos partidos, dizendo que há “partidos demais”.

    Eu lhe pergunto, há partido demais no Brasil? Ou existem partidos genéricos demais? E faltam partidos com ideologia definida, como a Rede?

    Abraços,

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  5. Danilo Freire

    Olá Ricardo, tudo bem?

    Como todo mundo, também venho deixar meus parabéns pelo blog. Eu gostaria, entretanto, de pedir-lhe um favor: você poderia publicar o script para R que você usou nessa análise? Obrigado!

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